A rotina se encarrega de tornar o estranho em habitual.
Clube das Almas Inquietas
Bem vindo todo aquele que quer mais do que o cotidiano pode oferecer
Terça-feira, Julho 26, 2011
|Quinta-feira, Fevereiro 03, 2011
Como eu queria ter escrito este artigo do Calligaris
FOLHA DE SÃO PAULO São Paulo, quinta-feira, 03 de fevereiro de 2011
Todos os reis estão nus
CONTARDO CALLIGARIS
Que Deus nos guarde de todos os que não enxergam sua própria nudez, sejam eles reis ou não
JÁ ESTÁ em cartaz (pré-estreia) "O Discurso do Rei", de Tom Hooper. O filme foi indicado ao Oscar em doze categorias; a atuação de Colin Firth (o rei) é tão inesquecível quanto a de Geoffrey Rush (o terapeuta).
Resumo. Quando George 5º morreu, o filho primogênito lhe sucedeu (com o nome de Eduardo 8º), mas por um breve período: logo ele abdicou, por querer uma vida diferente daquela que o ofício de rei lhe proporcionaria. Com isso, o cadete, duque de York, tornou-se rei -inesperadamente e num momento decisivo: era a véspera da Segunda Guerra Mundial.
O duque de York (e futuro George 6º) era tímido, temperamental e, sobretudo, gago -isso numa época em que, graças ao rádio, a oratória dos ditadores incendiava as praças do mundo: na hora do perigo, para que serve um rei se ele não consegue ser a voz que fala para o povo e por ele?
O filme, imperdível, conta a história (verídica) da relação entre o rei e seu terapeuta, Lionel Logue, um fonoaudiólogo australiano pouco ortodoxo. Eis algumas reflexões saindo do cinema.
1) Qualquer terapia começa com uma dificuldade prática: uma impotência, a necessidade de um conselho, uma estranha tensão nos ombros, uma gagueira. A relação terapêutica se constrói a partir dessa dificuldade: o terapeuta é quem saberá nos livrar do transtorno, seja ele fonoaudiólogo, terapeuta corporal, eutonista, psi (de qualquer orientação) etc.
Quer queira quer não, a ação do terapeuta é dupla: relaxaremos o ombro, exercitaremos a dicção ou endireitaremos o pensamento do paciente, mas, de uma maneira ou de outra, acabaremos mexendo nas fontes de um mal-estar mais geral que talvez se manifeste no transtorno.
2) Há, às vezes (mais vezes do que parece), escondidas no nosso âmago, ambições envergonhadas ou vergonhosas, que não confessamos nem a nós mesmos. Quando sua realização se aproxima, só podemos inventar jeitos de fracassar, porque, no caso, não nos autorizamos a querer o que desejamos.
Obviamente, detestamos a voz do terapeuta que se aventura a nos dizer o que queremos mas não nos permitimos. Essa voz atrevida é a única aliada de desejos que são nossos, mas que encontram um adversário até em nós mesmos.
3) No trabalho psicoterapêutico, o segredo de polichinelo é que, por mais que suspendamos diplomas em nossas salas de espera, somos todos leigos e aventureiros. Não sei se existem cursos ou estágios que ensinem a ouvir o que Logue ouve e entende do desejo escondido do duque de York. Certamente não há formações que ensinem a coragem maluca do terapeuta do rei, seu esforço para se colocar, sem medo, ao serviço do que o duque e futuro rei não quer saber sobre si mesmo.
4) Pensando bem, Logue (como Freud) tinha, sim, uma formação que o qualificava como conhecedor da alma humana e especialmente da dos reis: a leitura de Shakespeare.
5) Quase sempre, chega o dia em que um paciente descobre que seu terapeuta sabe muito menos do que ele (o paciente) imaginava. O paciente pode até pensar que o terapeuta, atrás de seu bricabraque de saberes práticos, é um impostor. É ótimo que isso aconteça, pois, geralmente, é sinal de que o paciente descobriu que ele também é um impostor. No caso, o terapeuta não é qualificado para ser terapeuta, exatamente como o rei não é qualificado para ser rei. (Parêntese: em geral, é assim que nasce uma amizade: os dois se tornam amigos por aceitarem estar ambos nus, como o rei da fábula - mesmo que seja só por um instante.)
Não há como ser terapeuta ou rei sem alguma impostura. Todos carregamos máscaras. Avançamos mascarados, enfeitados por mentiras que nos embelezam. Até aqui, tudo bem: essa impostura é uma condição trivial e necessária da vida social. Os melhores conhecem sua impostura e sabem que não estão à altura de sua máscara.
Os piores se identificam com sua máscara. Acreditar nas máscaras que vestimos é um delírio que nos torna perigosos. Não há diferença entre o rei que acreditasse ser rei, o terapeuta que acreditasse ser terapeuta e o anjo exterminador que saisse atirando e matando, perfeitamente convencido de ser uma figura do apocalipse. Os três teriam isto em comum: acreditariam ser a máscara que eles vestem.
Enfim, que Deus nos guarde de todos os que não enxergam sua própria nudez.
Todos os reis estão nus
CONTARDO CALLIGARIS
Que Deus nos guarde de todos os que não enxergam sua própria nudez, sejam eles reis ou não
JÁ ESTÁ em cartaz (pré-estreia) "O Discurso do Rei", de Tom Hooper. O filme foi indicado ao Oscar em doze categorias; a atuação de Colin Firth (o rei) é tão inesquecível quanto a de Geoffrey Rush (o terapeuta).
Resumo. Quando George 5º morreu, o filho primogênito lhe sucedeu (com o nome de Eduardo 8º), mas por um breve período: logo ele abdicou, por querer uma vida diferente daquela que o ofício de rei lhe proporcionaria. Com isso, o cadete, duque de York, tornou-se rei -inesperadamente e num momento decisivo: era a véspera da Segunda Guerra Mundial.
O duque de York (e futuro George 6º) era tímido, temperamental e, sobretudo, gago -isso numa época em que, graças ao rádio, a oratória dos ditadores incendiava as praças do mundo: na hora do perigo, para que serve um rei se ele não consegue ser a voz que fala para o povo e por ele?
O filme, imperdível, conta a história (verídica) da relação entre o rei e seu terapeuta, Lionel Logue, um fonoaudiólogo australiano pouco ortodoxo. Eis algumas reflexões saindo do cinema.
1) Qualquer terapia começa com uma dificuldade prática: uma impotência, a necessidade de um conselho, uma estranha tensão nos ombros, uma gagueira. A relação terapêutica se constrói a partir dessa dificuldade: o terapeuta é quem saberá nos livrar do transtorno, seja ele fonoaudiólogo, terapeuta corporal, eutonista, psi (de qualquer orientação) etc.
Quer queira quer não, a ação do terapeuta é dupla: relaxaremos o ombro, exercitaremos a dicção ou endireitaremos o pensamento do paciente, mas, de uma maneira ou de outra, acabaremos mexendo nas fontes de um mal-estar mais geral que talvez se manifeste no transtorno.
2) Há, às vezes (mais vezes do que parece), escondidas no nosso âmago, ambições envergonhadas ou vergonhosas, que não confessamos nem a nós mesmos. Quando sua realização se aproxima, só podemos inventar jeitos de fracassar, porque, no caso, não nos autorizamos a querer o que desejamos.
Obviamente, detestamos a voz do terapeuta que se aventura a nos dizer o que queremos mas não nos permitimos. Essa voz atrevida é a única aliada de desejos que são nossos, mas que encontram um adversário até em nós mesmos.
3) No trabalho psicoterapêutico, o segredo de polichinelo é que, por mais que suspendamos diplomas em nossas salas de espera, somos todos leigos e aventureiros. Não sei se existem cursos ou estágios que ensinem a ouvir o que Logue ouve e entende do desejo escondido do duque de York. Certamente não há formações que ensinem a coragem maluca do terapeuta do rei, seu esforço para se colocar, sem medo, ao serviço do que o duque e futuro rei não quer saber sobre si mesmo.
4) Pensando bem, Logue (como Freud) tinha, sim, uma formação que o qualificava como conhecedor da alma humana e especialmente da dos reis: a leitura de Shakespeare.
5) Quase sempre, chega o dia em que um paciente descobre que seu terapeuta sabe muito menos do que ele (o paciente) imaginava. O paciente pode até pensar que o terapeuta, atrás de seu bricabraque de saberes práticos, é um impostor. É ótimo que isso aconteça, pois, geralmente, é sinal de que o paciente descobriu que ele também é um impostor. No caso, o terapeuta não é qualificado para ser terapeuta, exatamente como o rei não é qualificado para ser rei. (Parêntese: em geral, é assim que nasce uma amizade: os dois se tornam amigos por aceitarem estar ambos nus, como o rei da fábula - mesmo que seja só por um instante.)
Não há como ser terapeuta ou rei sem alguma impostura. Todos carregamos máscaras. Avançamos mascarados, enfeitados por mentiras que nos embelezam. Até aqui, tudo bem: essa impostura é uma condição trivial e necessária da vida social. Os melhores conhecem sua impostura e sabem que não estão à altura de sua máscara.
Os piores se identificam com sua máscara. Acreditar nas máscaras que vestimos é um delírio que nos torna perigosos. Não há diferença entre o rei que acreditasse ser rei, o terapeuta que acreditasse ser terapeuta e o anjo exterminador que saisse atirando e matando, perfeitamente convencido de ser uma figura do apocalipse. Os três teriam isto em comum: acreditariam ser a máscara que eles vestem.
Enfim, que Deus nos guarde de todos os que não enxergam sua própria nudez.
Terça-feira, Janeiro 04, 2011
E o Darwin vai para?
Não tenho conseguido escrever, mas creio que posso colocar aqui textos que eu aprecie especialmente.
Este texto me foi enviado pelo Sérgio, um expert na seleção de leituras imperdíveis.
Autoria: Matthew Shirts - O Estado de S.Paulo em 03/01/2011
Divirtam-se!
Para alguns, o Oscar é a premiação mais esperada do ano. Outros acompanham com afinco o Bola de Prata, da revista Placar. Sigo as duas, entusiasmado, mas a minha favorita, confesso, é o Darwin Awards, ou o Prêmio Darwin, concedido todos os anos desde 1994.
O curioso, no caso, é que nunca ninguém, ou quase ninguém (há categorias especiais), chegou a receber um prêmio desses. Para ganhá-lo é preciso morrer e, como se não bastasse, morrer de maneira ridícula.
A criadora do Darwin Awards, Wendy Northcutt, pesquisadora em biologia molecular que trabalhou em neurociência na Universidade Stanford e contribuiu para terapias anticancerígenas, quis premiar quem retira seus genes da "piscina genética" da humanidade. Mas não basta morrer, claro. A distinção vai para aqueles cujas mortes denunciam uma forte tendência para, digamos, a autodestruição hilária. Ao retirar seu material genético do pool de genes dos humanos, eles fazem um favor às gerações futuras. Contribuem para um processo de evolução mais inteligente para a nossa espécie. Daí o nome de Darwin, autor da teoria da evolução.
É uma forma negra de humor? Sem dúvida.
O meu favorito de todos os tempos é o do veterinário do zoológico - na Alemanha, se a memória não me falha. Ele administrou um supositório em um elefante que sofria de prisão de ventre havia semanas. Morreu soterrado. Wendy garante que averigua todas as histórias vencedoras.
Os dez premiados do ano de 2010 foram publicados no dia 20 de dezembro último no site www.darwinawards.com. Atualmente, os prêmios são concedidos mediante votação popular pela internet. Há dois brasileiros entre os dez, o que talvez reflita a importância crescente do País no cenário mundial. Torcemos para que seja isso, ao menos.
Um deles trabalhava como guarda em Belém do Pará. Para proteger seu carro contra os roubos frequentes no seu bairro, construiu à sua volta uma pequena cerca elétrica. Mas esqueceu de desligá-la pela manhã no dia fatal, e morreu eletrificado ao tentar entrar no automóvel. Esse caso mereceu o nono lugar em 2010.
O segundo lugar foi para um casal na Rodovia Presidente Dutra, aquela que liga o Rio de Janeiro a São Paulo. Para quem nunca andou nela, basta dizer que é uma das estradas mais movimentadas do País. Às 6 da manhã, em meio a um nevoeiro forte, o casal resolveu parar seu carro com a finalidade de fazer amor. Como destaca o site da Wendy, não entraram em um posto de gasolina nem ao menos buscaram o acostamento. Não, acredite se quiser, pararam em meio à pista da direita, ou seja, na própria estrada. Passou por cima deles um caminhão gigantesco levando os dois juntos. Este caso é considerado exemplar pelo fato de ter acontecido durante o próprio ato de reprodução humana.
O grande vencedor de 2010 é, era, sul-coreano. Seria difícil acreditar, caso não houvesse um filme do acontecimento no Utube. Recomendo-o apenas para os maiores de idade, embora lembre um desenho animado (http://www.youtube.com/watch?v=VwOy_V7TXKI). O vencedor chega a um elevador em uma cadeira de rodas motorizada, daquelas bem poderosas, pouco depois de as portas se fecharem. Impaciente, vai batendo nelas com seu veículo até conseguir que se abram. Com o embalo, ele entra no buraco deixado pelo elevador, que subira, e cai seis andares. É trágico, sem dúvida, mas cômico ao mesmo tempo.
Desejo a você e aos seus um ótimo - e seguro - 2011.
Este texto me foi enviado pelo Sérgio, um expert na seleção de leituras imperdíveis.
Autoria: Matthew Shirts - O Estado de S.Paulo em 03/01/2011
Divirtam-se!
Para alguns, o Oscar é a premiação mais esperada do ano. Outros acompanham com afinco o Bola de Prata, da revista Placar. Sigo as duas, entusiasmado, mas a minha favorita, confesso, é o Darwin Awards, ou o Prêmio Darwin, concedido todos os anos desde 1994.
O curioso, no caso, é que nunca ninguém, ou quase ninguém (há categorias especiais), chegou a receber um prêmio desses. Para ganhá-lo é preciso morrer e, como se não bastasse, morrer de maneira ridícula.
A criadora do Darwin Awards, Wendy Northcutt, pesquisadora em biologia molecular que trabalhou em neurociência na Universidade Stanford e contribuiu para terapias anticancerígenas, quis premiar quem retira seus genes da "piscina genética" da humanidade. Mas não basta morrer, claro. A distinção vai para aqueles cujas mortes denunciam uma forte tendência para, digamos, a autodestruição hilária. Ao retirar seu material genético do pool de genes dos humanos, eles fazem um favor às gerações futuras. Contribuem para um processo de evolução mais inteligente para a nossa espécie. Daí o nome de Darwin, autor da teoria da evolução.
É uma forma negra de humor? Sem dúvida.
O meu favorito de todos os tempos é o do veterinário do zoológico - na Alemanha, se a memória não me falha. Ele administrou um supositório em um elefante que sofria de prisão de ventre havia semanas. Morreu soterrado. Wendy garante que averigua todas as histórias vencedoras.
Os dez premiados do ano de 2010 foram publicados no dia 20 de dezembro último no site www.darwinawards.com. Atualmente, os prêmios são concedidos mediante votação popular pela internet. Há dois brasileiros entre os dez, o que talvez reflita a importância crescente do País no cenário mundial. Torcemos para que seja isso, ao menos.
Um deles trabalhava como guarda em Belém do Pará. Para proteger seu carro contra os roubos frequentes no seu bairro, construiu à sua volta uma pequena cerca elétrica. Mas esqueceu de desligá-la pela manhã no dia fatal, e morreu eletrificado ao tentar entrar no automóvel. Esse caso mereceu o nono lugar em 2010.
O segundo lugar foi para um casal na Rodovia Presidente Dutra, aquela que liga o Rio de Janeiro a São Paulo. Para quem nunca andou nela, basta dizer que é uma das estradas mais movimentadas do País. Às 6 da manhã, em meio a um nevoeiro forte, o casal resolveu parar seu carro com a finalidade de fazer amor. Como destaca o site da Wendy, não entraram em um posto de gasolina nem ao menos buscaram o acostamento. Não, acredite se quiser, pararam em meio à pista da direita, ou seja, na própria estrada. Passou por cima deles um caminhão gigantesco levando os dois juntos. Este caso é considerado exemplar pelo fato de ter acontecido durante o próprio ato de reprodução humana.
O grande vencedor de 2010 é, era, sul-coreano. Seria difícil acreditar, caso não houvesse um filme do acontecimento no Utube. Recomendo-o apenas para os maiores de idade, embora lembre um desenho animado (http://www.youtube.com/watch?v=VwOy_V7TXKI). O vencedor chega a um elevador em uma cadeira de rodas motorizada, daquelas bem poderosas, pouco depois de as portas se fecharem. Impaciente, vai batendo nelas com seu veículo até conseguir que se abram. Com o embalo, ele entra no buraco deixado pelo elevador, que subira, e cai seis andares. É trágico, sem dúvida, mas cômico ao mesmo tempo.
Desejo a você e aos seus um ótimo - e seguro - 2011.
Domingo, Junho 27, 2010
Discurso de José Saramago ao receber o Prêmio Nobel de Literatura
"O homem mais sábio que conheci em toda a minha vida não sabia ler nem escrever. As quatro da madrugada, quando a promessa de um novo dia ainda vinha em terras de França, levantava-se da enxerga e saía para o campo, levando ao pasto a meia dúzia de porcas de cuja fertilidade se alimentavam ele e a mulher. Viviam desta escassez os meus avós maternos, da pequena criação de porcos que, depois do desmame, eram vendidos aos vizinhos da aldeia. Azinhaga de seu nome, na província do Ribatejo.
Chamavam-se Jerónimo Melrinho e Josefa Caixinha esses avós, e eram analfabetos um e outro. No Inverno, quando o frio da noite apertava ao ponto de a água dos cântaros gelar dentro da casa, iam buscar às pocilgas os bácoros mais débeis e levavam-nos para a sua cama. Debaixo das mantas grosseiras, o calor dos humanos livrava os animaizinhos do enregelamento e salvava-os de uma morte certa. Ainda que fossem gente de bom caráter, não era por primores de alma compassiva que os dois velhos assim procediam: o que os preocupava, sem sentimentalismos nem retóricas, era proteger o seu ganha-pão, com a naturalidade de quem, para manter a vida, não aprendeu a pensar mais do que o indispensável.
Ajudei muitas vezes este meu avô Jerónimo nas suas andanças de pastor, cavei muitas vezes a terra do quintal anexo à casa e cortei lenha para o lume, muitas vezes, dando voltas e voltas à grande roda deferro que acionava a bomba, fiz subir a água do poço comunitário e a transportei ao ombro, muitas vezes, às escondidas dos guardas das searas, fui com a minha avó, também pela madrugada, munidos de ancinho, panal e corda, a recolher nos restolhos a palha solta que depois haveria de servir para a cama do gado. E algumas vezes, em noites quentes de Verão, depois da ceia, meu avô me disse: "José, hoje vamos dormir os dois debaixo da figueira". Havia outras duas figueiras, mas aquela, certamente por ser a maior, por ser a mais antiga, por ser a de sempre, era, para toda as pessoas da casa, a figueira.
Mais ou menos por antonomásia, palavra erudita que só muitos anos depois viria a conhecer e a saber o que significava... No meio da paz noturna, entre os ramos altos da árvore, uma estrela aparecia-me, e depois, lentamente, escondia-se por trás de uma folha, e, olhando eu noutra direção, tal como um rio correndo em silêncio pelo céu côncavo, surgia a claridade opalescente da Via Láctea, o Caminho de Santiago, como ainda lhe chamávamos na aldeia.
Enquanto o sono não chegava, a noite povoava-se com as histórias e os casos que o meu avô ia contando: lendas, aparições, assombros, episódios singulares, mortes antigas, zaragatas de pau e pedra, palavras de antepassados, um incansável rumor de memórias que me mantinha desperto, ao mesmo tempo que suavemente me acalentava. Nunca pude saber se ele se calava quando se apercebia de que eu tinha adormecido, ou se continuava a falar para não deixar em meio a resposta à pergunta que invariavelmente lhe fazia nas pausas mais demoradas que ele calculadamente metia no relato: "E depois?". Talvez repetisse as histórias para si próprio, quer fosse para não as esquecer, quer fosse para as enriquecer com peripécias novas.
Naquela idade minha e naquele tempo de nós todos, nem será preciso dizer que eu imaginava que o meu avô Jerónimo era senhor de toda a ciência do mundo. Quando, à primeira luz da manhã, o canto dos pássaros me despertava, ele já não estava ali, tinha saído para o campo com os seus animais, deixando-me a dormir. Então levantava-me, dobrava a manta e, descalço (na aldeia andei sempre descalço até aos 14 anos), ainda com palhas agarradas ao cabelo, passava da parte cultivada do quintal para a outra onde se encontravam as pocilgas, ao lado da casa. Minha avó, já a pé antes do meu avô, punha-me na frente uma grande tigela de café com pedaços de pão e perguntava-me se tinha dormido bem. Se eu lhe contava algum mau sonho nascido das histórias do avô, ela sempre me tranqüilizava: "Não faças caso, em sonhos não há firmeza".
Pensava então que a minha avó, embora fosse também uma mulher muito sábia, não alcançava as alturas do meu avô, esse que, deitado debaixo da figueira, tendo ao lado o neto José, era capaz de pôr o universo em movimento apenas com duas palavras. Foi só muitos anos depois, quando o meu avô já se tinha ido deste mundo e eu era um homem feito, que vim a compreender que a avó, afinal, também acreditava em sonhos. Outra coisa não poderia significar que, estando ela sentada, uma noite, à porta da sua pobre casa, onde então vivia sozinha, a olhar as estrelas maiores e menores por cima da sua cabeça, tivesse dito estas palavras: "O mundo é tão bonito, e eu tenho tanta pena de morrer". Não disse medo de morrer, disse pena de morrer, como se a vida de pesado e contínuo trabalho que tinha sido a sua estivesse, naquele momento quase final, a receber a graça de uma suprema e derradeira despedida, a consolação da beleza revelada.
Estava sentada à porta de uma casa como não creio que tenha havido alguma outra no mundo porque nela viveu gente capaz de dormir com porcos como se fossem os seus próprios filhos, gente que tinha pena de ir-se da vida só porque o mundo era bonito, gente, e este foi o meu avô Jerónimo, pastor e contador de histórias, que, ao pressentir que a morte o vinha buscar, foi despedir-se das árvores do seu quintal, uma por uma, abraçando-se a elas e chorando porque sabia que não as tornaria a ver."
Chamavam-se Jerónimo Melrinho e Josefa Caixinha esses avós, e eram analfabetos um e outro. No Inverno, quando o frio da noite apertava ao ponto de a água dos cântaros gelar dentro da casa, iam buscar às pocilgas os bácoros mais débeis e levavam-nos para a sua cama. Debaixo das mantas grosseiras, o calor dos humanos livrava os animaizinhos do enregelamento e salvava-os de uma morte certa. Ainda que fossem gente de bom caráter, não era por primores de alma compassiva que os dois velhos assim procediam: o que os preocupava, sem sentimentalismos nem retóricas, era proteger o seu ganha-pão, com a naturalidade de quem, para manter a vida, não aprendeu a pensar mais do que o indispensável.
Ajudei muitas vezes este meu avô Jerónimo nas suas andanças de pastor, cavei muitas vezes a terra do quintal anexo à casa e cortei lenha para o lume, muitas vezes, dando voltas e voltas à grande roda deferro que acionava a bomba, fiz subir a água do poço comunitário e a transportei ao ombro, muitas vezes, às escondidas dos guardas das searas, fui com a minha avó, também pela madrugada, munidos de ancinho, panal e corda, a recolher nos restolhos a palha solta que depois haveria de servir para a cama do gado. E algumas vezes, em noites quentes de Verão, depois da ceia, meu avô me disse: "José, hoje vamos dormir os dois debaixo da figueira". Havia outras duas figueiras, mas aquela, certamente por ser a maior, por ser a mais antiga, por ser a de sempre, era, para toda as pessoas da casa, a figueira.
Mais ou menos por antonomásia, palavra erudita que só muitos anos depois viria a conhecer e a saber o que significava... No meio da paz noturna, entre os ramos altos da árvore, uma estrela aparecia-me, e depois, lentamente, escondia-se por trás de uma folha, e, olhando eu noutra direção, tal como um rio correndo em silêncio pelo céu côncavo, surgia a claridade opalescente da Via Láctea, o Caminho de Santiago, como ainda lhe chamávamos na aldeia.
Enquanto o sono não chegava, a noite povoava-se com as histórias e os casos que o meu avô ia contando: lendas, aparições, assombros, episódios singulares, mortes antigas, zaragatas de pau e pedra, palavras de antepassados, um incansável rumor de memórias que me mantinha desperto, ao mesmo tempo que suavemente me acalentava. Nunca pude saber se ele se calava quando se apercebia de que eu tinha adormecido, ou se continuava a falar para não deixar em meio a resposta à pergunta que invariavelmente lhe fazia nas pausas mais demoradas que ele calculadamente metia no relato: "E depois?". Talvez repetisse as histórias para si próprio, quer fosse para não as esquecer, quer fosse para as enriquecer com peripécias novas.
Naquela idade minha e naquele tempo de nós todos, nem será preciso dizer que eu imaginava que o meu avô Jerónimo era senhor de toda a ciência do mundo. Quando, à primeira luz da manhã, o canto dos pássaros me despertava, ele já não estava ali, tinha saído para o campo com os seus animais, deixando-me a dormir. Então levantava-me, dobrava a manta e, descalço (na aldeia andei sempre descalço até aos 14 anos), ainda com palhas agarradas ao cabelo, passava da parte cultivada do quintal para a outra onde se encontravam as pocilgas, ao lado da casa. Minha avó, já a pé antes do meu avô, punha-me na frente uma grande tigela de café com pedaços de pão e perguntava-me se tinha dormido bem. Se eu lhe contava algum mau sonho nascido das histórias do avô, ela sempre me tranqüilizava: "Não faças caso, em sonhos não há firmeza".
Pensava então que a minha avó, embora fosse também uma mulher muito sábia, não alcançava as alturas do meu avô, esse que, deitado debaixo da figueira, tendo ao lado o neto José, era capaz de pôr o universo em movimento apenas com duas palavras. Foi só muitos anos depois, quando o meu avô já se tinha ido deste mundo e eu era um homem feito, que vim a compreender que a avó, afinal, também acreditava em sonhos. Outra coisa não poderia significar que, estando ela sentada, uma noite, à porta da sua pobre casa, onde então vivia sozinha, a olhar as estrelas maiores e menores por cima da sua cabeça, tivesse dito estas palavras: "O mundo é tão bonito, e eu tenho tanta pena de morrer". Não disse medo de morrer, disse pena de morrer, como se a vida de pesado e contínuo trabalho que tinha sido a sua estivesse, naquele momento quase final, a receber a graça de uma suprema e derradeira despedida, a consolação da beleza revelada.
Estava sentada à porta de uma casa como não creio que tenha havido alguma outra no mundo porque nela viveu gente capaz de dormir com porcos como se fossem os seus próprios filhos, gente que tinha pena de ir-se da vida só porque o mundo era bonito, gente, e este foi o meu avô Jerónimo, pastor e contador de histórias, que, ao pressentir que a morte o vinha buscar, foi despedir-se das árvores do seu quintal, uma por uma, abraçando-se a elas e chorando porque sabia que não as tornaria a ver."
Domingo, Maio 09, 2010
|Sexta-feira, Maio 07, 2010
When Insults Had Class
The exchange between Churchill & Lady Astor:
She said, "If you were my husband I'd poison your tea."
He said, "If you were my wife, I'd drink it."
A member of Parliament to Disraeli: "Sir, you will either die on the gallows or of some unspeakable disease."
"That depends, Sir," said Disraeli, "whether I embrace your policies or your mistress."
"He had delusions of adequacy." - Walter Kerr
"He has all the virtues I dislike and none of the vices I admire." - Winston Churchill
"I have never killed a man, but I have read many obituaries with great pleasure." Clarence Darrow
"He has never been known to use a word that might send a reader to the dictionary." - William Faulkner (about Ernest Hemingway).
"Thank you for sending me a copy of your book; I'll waste no time reading it." - Moses Hadas
"I didn't attend the funeral, but I sent a nice letter saying I approved of it." - Mark Twain
"He has no enemies, but is intensely disliked by his friends.." - Oscar Wilde
"I am enclosing two tickets to the first night of my new play; bring a friend.... if you have one." - George Bernard Shaw to Winston Churchill.
"Cannot possibly attend first night, will attend second... if there is one." - Winston Churchill, in response.
"I feel so miserable without you; it's almost like having you here." - Stephen Bishop
"He is a self-made man and worships his creator." - John Bright
"I've just learned about his illness. Let's hope it's nothing trivial." - Irvin S. Cobb
"He is not only dull himself; he is the cause of dullness in others." - Samuel Johnson
"He is simply a shiver looking for a spine to run up." - Paul Keating
"In order to avoid being called a flirt, she always yielded easily." - Charles, Count Talleyrand
"He loves nature in spite of what it did to him." - Forrest Tucker
"Why do you sit there looking like an envelope without any address on it?" - Mark Twain
"His mother should have thrown him away and kept the stork." - Mae West
"Some cause happiness wherever they go; others, whenever they go." - Oscar Wilde
"He uses statistics as a drunken man uses lamp-posts... for support rather than illumination." - Andrew Lang (1844-1912)
"He has Van Gogh's ear for music." - Billy Wilder
"I've had a perfectly wonderful evening. But this wasn't it." - Groucho Marx
She said, "If you were my husband I'd poison your tea."
He said, "If you were my wife, I'd drink it."
A member of Parliament to Disraeli: "Sir, you will either die on the gallows or of some unspeakable disease."
"That depends, Sir," said Disraeli, "whether I embrace your policies or your mistress."
"He had delusions of adequacy." - Walter Kerr
"He has all the virtues I dislike and none of the vices I admire." - Winston Churchill
"I have never killed a man, but I have read many obituaries with great pleasure." Clarence Darrow
"He has never been known to use a word that might send a reader to the dictionary." - William Faulkner (about Ernest Hemingway).
"Thank you for sending me a copy of your book; I'll waste no time reading it." - Moses Hadas
"I didn't attend the funeral, but I sent a nice letter saying I approved of it." - Mark Twain
"He has no enemies, but is intensely disliked by his friends.." - Oscar Wilde
"I am enclosing two tickets to the first night of my new play; bring a friend.... if you have one." - George Bernard Shaw to Winston Churchill.
"Cannot possibly attend first night, will attend second... if there is one." - Winston Churchill, in response.
"I feel so miserable without you; it's almost like having you here." - Stephen Bishop
"He is a self-made man and worships his creator." - John Bright
"I've just learned about his illness. Let's hope it's nothing trivial." - Irvin S. Cobb
"He is not only dull himself; he is the cause of dullness in others." - Samuel Johnson
"He is simply a shiver looking for a spine to run up." - Paul Keating
"In order to avoid being called a flirt, she always yielded easily." - Charles, Count Talleyrand
"He loves nature in spite of what it did to him." - Forrest Tucker
"Why do you sit there looking like an envelope without any address on it?" - Mark Twain
"His mother should have thrown him away and kept the stork." - Mae West
"Some cause happiness wherever they go; others, whenever they go." - Oscar Wilde
"He uses statistics as a drunken man uses lamp-posts... for support rather than illumination." - Andrew Lang (1844-1912)
"He has Van Gogh's ear for music." - Billy Wilder
"I've had a perfectly wonderful evening. But this wasn't it." - Groucho Marx
Terça-feira, Abril 06, 2010
Que estranho dia para se ter alegria
A cidade embaixo d´água. Moro perto de Atlântida, não perto da Atlântica, ai.
Não consegui trabalhar. Desde cedo o celular tocando:
“Você já viu na TV? A cidade está embaixo d´água, não vou poder ir à sessão”.
“Oi, minha mãe falou que hoje eu não saio de casa.”
“Já ia telefonar, hoje não tem sessão, né?”
Confirmado o cancelamento integral de meu dia de trabalho mais ocupado na semana, rendo-me às evidências: O Rio de Janeiro está submerso.
Arrisco o mercado na esquina. Vazio de clientes e funcionários, o mercado é calmo, tranqüilo. Compro o necessário e o supérfluo em medidas equivalentes.
Ângela, a fiel secretária, me pergunta sobre o almoço, que escolho baseada na privação sistemática de comidinhas feitas na hora. Bifinhos de carne moída feitos em casa, cogumelos frescos salteados (um dos tais supérfluos adquirido no impulso), purê de batatas e, alegria das alegrias, feijão fresquinho com bastante paio e lingüiça.
Equilibro a culpa com uma grande salada de folhas verdes, que serão comidas sem tempero e nem azeite, penitência que irá anistiar o feijão preto bem quentinho tomado na xícara.
As filhas em casa, liberadas do estudo e trabalho.
Calamidade tem suas vantagens quando estamos em segurança.
A filha mais velha convida à transgressão: Hoje não trabalho, vamos tomar vinho no almoço?
Porque não?
Procuro o melhor tinto. Apenas nós três, em plena terça feira, juntas no almoço mais caseiro do universo.
Garrafa aberta, o sabor é divino. A companhia também e o almoço será, com certeza.
Um brinde de gratidão a este estranho dia para se ter alegria.
Não consegui trabalhar. Desde cedo o celular tocando:
“Você já viu na TV? A cidade está embaixo d´água, não vou poder ir à sessão”.
“Oi, minha mãe falou que hoje eu não saio de casa.”
“Já ia telefonar, hoje não tem sessão, né?”
Confirmado o cancelamento integral de meu dia de trabalho mais ocupado na semana, rendo-me às evidências: O Rio de Janeiro está submerso.
Arrisco o mercado na esquina. Vazio de clientes e funcionários, o mercado é calmo, tranqüilo. Compro o necessário e o supérfluo em medidas equivalentes.
Ângela, a fiel secretária, me pergunta sobre o almoço, que escolho baseada na privação sistemática de comidinhas feitas na hora. Bifinhos de carne moída feitos em casa, cogumelos frescos salteados (um dos tais supérfluos adquirido no impulso), purê de batatas e, alegria das alegrias, feijão fresquinho com bastante paio e lingüiça.
Equilibro a culpa com uma grande salada de folhas verdes, que serão comidas sem tempero e nem azeite, penitência que irá anistiar o feijão preto bem quentinho tomado na xícara.
As filhas em casa, liberadas do estudo e trabalho.
Calamidade tem suas vantagens quando estamos em segurança.
A filha mais velha convida à transgressão: Hoje não trabalho, vamos tomar vinho no almoço?
Porque não?
Procuro o melhor tinto. Apenas nós três, em plena terça feira, juntas no almoço mais caseiro do universo.
Garrafa aberta, o sabor é divino. A companhia também e o almoço será, com certeza.
Um brinde de gratidão a este estranho dia para se ter alegria.
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